Pecuária Neutra  e Regenerativa

Metodologia Pecuária Neutra em gases de efeito estufa

1- Impactos negativos da pecuária - gases de efeito estufa 

“Nos últimos 100 anos, devido a um progressivo aumento na concentração dos gases de efeito estufa, a temperatura global do planeta tem crescido, o que tem sido provocado, entre outros, pelas atividades humanas que emitem esses gases, tais como a atividade pecuária, que é responsável por 51% das emissões de gases do efeito estufa na agropecuária brasileira. A potencialização do efeito estufa pode resultar em consequências sérias para a vida na Terra no futuro próximo.

Ecólogos sugerem que o aquecimento global deve alterar o clima a uma velocidade maior que a capacidade de adaptação dos organismos. O efeito pode ser devastador para a biodiversidade e ecossistemas do mundo inteiro (Ricklefs 1996; Romanini 2003).”

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gases_do_efeito_estufa

 

O gás de efeito estufa encontrado em maior abundância na atmosfera é o gás carbônico (CO2), apesar de ser encontrado em menor quantidade, o metano (CH4) tem o potencial de aquecimento do planeta 21 vezes maior que o CO2 ( IPCC 1997).

Ou seja, cada tonelada de metano (CH4) emitida equivale a emissão de 21 toneladas de gás carbônico equivalente (CO2 eq).

A principal fonte de emissões dos gases de efeito estufa da pecuária de corte e de leite, ou seja, a emissão do gás metano entérico.

A emissão do metano entérico ocorre pela fermentação no processo digestivo dos ruminantes. O rumem é um “estomago primata” e que por algum motivo, não evoluiu durante as ultimas eras cronológicas. Para obter os nutrientes provenientes do capim, alimento rico em fibra (celulose e hemicelulose), o sistema digestivo dos ruminantes realiza uma reação de metanogênese que tem como resíduo o gás metano, denominado metano entérico.

O termo ruminante está relacionado com o hábito de ruminar destes animais, ou seja, depois que ingerem os alimentos, este é regurgitado para a boca, onde é novamente mastigado (ruminado) e deglutido.

Figura 1 – Esquema da emissão do metano entérico pelo gado

Fonte: Projeto Pecuária Neutra 2016

A figura 1 demonstra o processo de ruminação, o qual o oxigênio (O2)e absorvido e o metano (CH4) é exalado junto com o dióxido de carbono (CO2).

Aproximadamente 95% do metano produzido no rumem, vai para o pulmão e é emitido para a atmosfera durante o processo de respiração e exalação e, assim, contribui para o aumento dos gases de efeito estufa, a degradação da camada de ozônio e ao aquecimento do planeta.

A pecuária é uma das maiores fontes globais de emissão de gases de efeito estufa, no Brasil essa situação se acentua devido ao país utilizar em larga escala o modelo da pecuária extensiva, de baixa produtividade, e de possuir um dos maiores rebanhos do mundo.

Figura 2 - Emissões brasileiras de metano entérico

Fonte: Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa.

A figura 2 mostra as emissões do setor de agropecuária no período entre 1970 e 2014 e destaca a emissão da fermentação entérica como principal fonte de gases de efeito estufa, em segundo lugar vem a transformação e uso dos solos.

2- Estimativa da Emissão do metano Entérico (CH4

 

A quantidade de metano entérico emitida pelos animais será calculada tendo como base de dados a pesquisa realizada pela Embrapa, que através da Rede Pecus desenvolveu equações para a pecuária de corte.

“Na rede Pecus os diversos processos relacionados com emissão e mitigação dos GEE são avaliados seguindo protocolos de pesquisa padronizados e previamente acordados, que contemplam o conjunto solo-planta-animal-atmosfera, para gerar o balanço de carbono dos sistemas melhorados, em comparação com a pastagem tradicional e a vegetação nativa.

São avaliados sistemas extensivos e intensivos de produção a pasto, de integração lavoura-pecuária, silvipastoril, agrossilvipastoril e confinamentos para produção de bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos, suínos e aves e tratamento de dejetos animais."

Fonte: Embrapa Sudeste: Rede Pecus.

Disponível em: http://www.cppse.embrapa.br/redepecus/arede

 

A escolha pela Rede Pecus, se deve ao fato de a Embrapa ter pesquisas nos 5 biomas brasileiros e assim representa melhor as particularidades de cada região do pais. Somado a isto, a pesquisa também contemplou diferentes formas de manejo, nutrição e genética dos animais para cada um desses biomas.

Os valores que podem ser usados como referência são os seguintes:

 

“1) O valor fixo do Tier 1 do IPCC: 56 kg de CH4/animal/ano.

 2) O valor estimado usando o Tier 2 do IPCC: 70 kg de CH4/animal/ano.

 3) O valor médio anual usando a equação empírica da Rede Pecus: 66 kg de CH4/animal/ano.

4) O valor médio obtido nos sistemas de ILPF da Embrapa Gado de Corte: 66 kg de CH4/animal/ano.”

Fonte: DOCUMENTOS 210. Carne Carbono Neutro: um novo conceito para carne sustentável produzida nos trópicos. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária; Embrapa Pecuária Sudeste; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, DF, 2015. p.20.

Vale assinalar que o dados do IPCC, descritos nos itens 1 e 2 na citação acima, tem como base os dados disponíveis para toda a América Latina e, dessa forma, podem apresentar uma distorção maior que os dados da Rede Pecus, e por esse motivo não foram utilizados.

Nesse contexto foi atribuída a emissão de: 66 kg de CH4/cab/ano

Fonte: DOCUMENTOS 210. Carne Carbono Neutro: um novo conceito para carne sustentável produzida nos trópicos. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária; Embrapa Pecuária Sudeste; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Brasília, DF, 2015. p.20.

Subsequentemente a emissão de CH4 por animal é potencializada por 21 vezes para obter a homogeneização dos gases, transformando-o em CO2e (IPCC, 1997).

Por ultimo o valor obtido é multiplicada pela taxa de lotação da fazenda por ha, conforme abaixo mostrado em detalhes através do exemplo da Fazenda Triqueda:

66 kg de CH4/cab/ano   x    21 (conversão de CH4 em CO2e)    x    1,5 cab/ha = 2.079 kg CO2e (ou 2,08 t. CO2e)

3- Cálculo do resgate de gás carbônico (CO2e)

Para o cálculo do gás carbônico resgatado pelas árvores do sistema é realizado a partir do volume de carbono localizado exclusivamente no sistema radicular (ou raízes) das árvores, sendo o primeiro passo a realização do inventário florestal.

Figura 3 – Inventário das árvores na Fazenda Triqueda

Fonte: Projeto Pecuária Neutra 2016

A figura acima mostra o trabalho de campo com a realização de inventários florestais, os dados coletados nos inventários são no software Sis desenvolvido pela Embrapa Florestas. Nesse caso foi utilizado o software Siseucalipto, mas o software também esta disponível para outras espécies florestais.

O software realiza a conversão do volume de madeira (m³) para a obtenção do CO2e (t) resgatado pelas árvores.

A seguir segue como exemplo, os dados coletados na Fazenda Triqueda.

Figura 4 – Processamento de dados no Siseucalipto

Fonte: Projeto Pecuária Neutra 2016

Na figura acima, observa-se em destaque na cor vermelha, na idade de 8 anos um resgate de 146,4 ton de CO2 eq. O tratamento das informações coletadas no inventários florestais do Sistema Silvipastoril pelo software Siseucalipto, ferramenta desenvolvida pela Embrapa Florestas, Colombo, PR, que produziu relatórios com as estimativas de volume total, incremento médio anual (IMA) e o total de CO2 eq. resgatado.

Para efeito do cálculo do resgate do carbono, o Projeto Pecuária Neutra utiliza somente o resgate de CO2 eq. proveniente do sistema radicular.

Através do procedimento de cubagem rigorasa das árvores, foi gerada uma equação de modelagem distinta para cada um dos espamentos e clones utilizados, nessas equações tambem foi considerada a densidade específica individual, conforme o exemplo abaixo:

SisEucalipto: Eucalyptus grandis Hill ex Maiden
tCO2 = (Vol+25%)x(Dens. Básica: 0,49)x(C: 0,42)x(CO2: 3,66)


SILVA, H.D. Modelos matemáticos para a estimativa da biomassa e do conteúdo de nutrientes em plantações de Eucaliptus grandis Hill (ex-maiden) em diferentes idades. UFPR, Tese de Doutorado. 1996. 101p.

Watzlawick, L.F., Sanquetta, C.R., Arce, J., Balbinot,R. Quantificação de biomassa total e carbono orgânico em povoamentos de Araucaria angustifólia (Bert.) O. Kuntze no sul do Estado do Paraná, Brasil. Revista Acadêmica: ciências agrárias e ambientais, Curitiba, v.1, n.2, p. 63-68, abr./jun. 2003.
 

Aravés de uma abordagem conservadora, a metodologia utilizada não considerou o resgate da parte da copa e do fuste das árvores, assim como o da pastagem forrageira do sistema e que, caso venham a ser contabilizados, irão potencializar a capacidade do sistema em ser um sumidouro de carbono.

Figura 5  – Tabela do resgate de gas carbonico equivalente do sistema silvipastoril                        

Fonte: Projeto Pecuária Neutra 2016

A figura acima mostra a conversão da informação do calculo do resgate do fuste da árvore (ou do tronco) na idade de 8 anos, com um resgate de 146,4 ton de CO2 eq. Essa informação é convertida para o resgate anual de 18,3 toneladas (146,4 ton / 8 anos = 18,3 ton resgatadas por ano).

Ainda na mesma figura mostra a conversão da informação do calculo do resgate do do sistema radicular das árvores (ou da raiz), na idade de 8 anos, com um resgate de 6,10 ton de CO2 eq.

A metodologia utilizada para o cálvulo da distribuição do CO2 eq. utilizou a base de dados de várias pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), MG, que possui um dos mais respeitados centros de estudos e pesquisas sobre florestas plantadas do mundo, destacando-se os trabalhos de Witschorecket et al. (2003), Paixão et al. (2006), Barros et al (1996), Reis (2006), Gatto (2011) e Ribeiro (2011).

4- Balanço de gases da neutralização do CH4 pelo CO2e

 

Seguindo com o exemplo da Fazenda Triqueda:

 

 2,08 t CO2e/ha/ano foi a emissão obtida referente a do metano entérico e de sua conversão para CO2e

(mais detalhada no item 2 acima)

6,10 t CO2e/ha/ano foi o sequestro de carbono realizado e de sua conversão para CO2e

(mais detalhada no item 3 acima)

Dessa forma foi obtido um valor de 4,08 t CO2e/ha/ano sequestrados adicionalmente

5- Destaques:

 

- O fator de potencialização do CH4  para CO2 eq

Antes de se efetivar a compensação pelo resgate do Sistema Silvipastoril, torna-se necessário fazer a transformação dos dois gases em unidades de comparação equânimes, ou seja, converter o metano entérico em CO2 eq.

Segundo dados presentes no IPCC (1997) Intergovernmental Panel on Climate Change – Directrices del IPCC para los inventários nacionales de gases de efecto invernadero, o potencial de aquecimento global do metano aprovado e com referência ao dióxido de carbono é de 21 vezes maior.

- O superávit de CO2 eq (388,40 ton).

Ou seja. CO2 eq estocado de forma adicional ao total de metano entérico produzido.

Esse superavit estratégico é considerado um importante ativo ambiental de múltiplo uso dentro do Projeto Pecuári Neutra:

- O superavit neutraliza os demais animais envolvidos na cadeia de custodia do produto final, como as matrizes vazias e reprodutores que geram os animais destinados ao corte.

- O superávit também é utilizado para compensar uma fração pequena de reemisão de CO2 eq do sistema radicular, conforme descrito abaixo:

 

Figura 7  – Sistema radicular do eucalipto

Fonte: Silva, J. C. ( 2012).

Figura 7  – Ilustação da parte da raiz acima e abaixo do solo

Fonte: Projeto Pecuária Neutra 2016

As figuras acima mostram a composição do sistema radicular da árvore depois da colheita. Esta apresenta uma pequena parte que fica acima do solo (ou parte aérea da raiz), sendo que a maior parte fica abaixo do solo. 

 

É de conhecimento do meio científico e acadêmico que a maior parte da raiz localizada abaixo do solo permanecerá ali após a colheita em forma de carbono estocado.

Já a parte localizada acima do solo, através do contato com o ar, terá uma fração pequena das raízes decomposta pela ação de microrganismos e, dessa forma, acabará por reemitir CO2 para a atmosfera que, nesse caso, é compensado pelo superávit de resgate de CO2 eq do Projeto Pecuária Neutra.

Outra possibilidade para uso do superávit seria compensar as emissões de gases de efeito estufa de outras etapas da cadeia produtiva da carne, como é o caso da complexa logística do produto até chegar no consumidor final.

Esse ativo ambiental (superávit de CO2 eq), além de estratégico, ratifica o potencial do Sistema Silvipastoril em ser uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, capaz de proporcional uma melhor harmonia entre as demandas do homem e a natureza, através de uma atenuação das mudanças climáticas.

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